PATERNIDADE: entrevista com Viviane Manso Castello Branco

13 ago

mês de valorização da paternidade

Agosto é o Mês de Valorização da Paternidade. A iniciativa, que busca  sensibilizar a sociedade para a importância da participação do pai no crescimento e desenvolvimento de seus filhos, envolve unidades de saúde, escolas, universidades, complexos esportivos, comunidades e demais parceiros da promoção da saúde da cidade do Rio de Janeiro. As atividades são coordenadas pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, por meio do Comitê Vida – um grupo de trabalho intersetorial que integra profissionais de organizações governamentais e não-governamentais, universidades e demais pessoas e instituições interessadas.

Nesta entrevista, a coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da Superintendência de Promoção da Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Viviane Manso Castello Branco, uma das idealizadoras do Mês de Valorização da Paternidade, explica como a parceria do homem faz diferença na saúde da mulher e no equilíbrio de toda a família.

 

VI Simpósio Paternidades, Singularidades e Políticas Públicas
Paternidade e Cuidado
13 e 14 de agosto de 2014, na Tijuca
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Como a presença do pai na criação dos filhos pode influenciar positivamente a saúde materna?

De diversas maneiras. Existem estudos que apontam que, desde o pré-natal, se o homem se envolve de forma mais ativa, compreendendo determinadas queixas, angústias e limitações da companheira, ele protege a saúde da mulher. Quando está mais presente, ele pode compartilhar melhor esse momento, tendo atitudes de apoio, como cuidar da alimentação dela; do ambiente, para que seja menos estressante; ajudar com outros filhos ou com o serviço doméstico. Outros estudos também apontam que, quando a mulher apresenta algum adoecimento na gestação, o apoio do homem contribui muito para o sucesso da gravidez. Ele também exerce papel importante na reivindicação de serviços de saúde para a mulher, atendimentos de emergência e outros cuidados que ela precise durante a gestação e o parto. Após o nascimento do bebê, a participação do pai é fundamental. Quando ele entende que a mulher acabou de ter a criança e precisa de suporte, que cuidar e amamentar são um trabalho que exige dedicação e envolvimento, ele pode ajudar para que ela fique muito mais tranquila e feliz.

De que forma o pai pode participar da criação dos filhos mais ativamente?

A gente pode pensar na participação ativa do homem em vários momentos. Na amamentação, por exemplo, o papel do pai pode ser apoiar a mulher, cuidando dos outros filhos, levantando para pegar a criança quando ela chora durante a noite, trocando fraldas, preparando o bebê para mamar, trazendo uma água ou suco de frutas enquanto ela amamenta. Outra tarefa importante do homem é fazer a intermediação com as famílias porque, muitas vezes, os parentes querem visitar, dar palpite, e a mãe precisa de tranquilidade para aprender a lidar com a situação, que, muitas vezes, é nova para todos.

postal- homem que e homem cuida de criança

Que implicações essa participação tem para a família como um todo?

Alguns estudos mostram que, quando a menina é criada por um homem que demonstra respeito pela sua companheira e que tem esse cuidado afetivo com os filhos, ela vai ter outro olhar para a escolha de seu próprio companheiro. Além disso, também vem sendo apontado que esse comportamento mais envolvido do homem com o cuidado dos filhos ajuda a diminuir as situações de violência doméstica contra a mulher e a criança e o adolescente e contribui para o equilíbrio da dinâmica familiar. A gente sabe que as mulheres se envolveram cada vez mais no mercado de trabalho, assumindo, muitas vezes, duplas ou triplas jornadas. Então, quando o homem divide o cuidado com os filhos e as tarefas da casa, a vida da mulher e da família se torna muito mais tranquila. Os países desenvolvidos, como a Suécia, por exemplo, estão cada vez mais estimulando que a licença concedida quando o bebê nasce possa ser dividida entre o pai e a mãe da criança, justamente para incentivar o maior envolvimento do homem na criação dos filhos.

Então o Estado também tem a responsabilidade de estimular uma maior participação paterna na criação dos filhos?

Sim. Eu tenho acompanhado propostas pela extensão da licença paternidade brasileira para 30 dias e parece que a ideia será aprovada. Acho essa conquista importantíssima, afinal, para além da lei, a questão é como o Estado ajuda a sociedade a perceber a relevância de determinadas questões. Por exemplo: teoricamente, um homem, quando vai levar o filho ao médico ou acompanhar o pré-natal da mulher, tem direito à dispensa das horas ou mesmo do dia de trabalho. Mas a sociedade não apresenta a mesma tolerância com os homens que costuma ter com as mulheres nesse aspecto da vida. A gente precisa, realmente, mudar a forma como a sociedade enxerga a responsabilidade da criação dos filhos. E, na medida em que o Estado amplia a licença paternidade, de alguma forma está passando um recado de que isso faz sentido, de que o homem pode colaborar também nesse cuidado, de que há uma mudança cultural em curso no Brasil.

Pai, você é muito importante para o sucesso da amamentação!

O que as unidades de saúde – especialmente aquelas que acolhem a mulher no pré-natal e puerpério – podem fazer para estimular essa participação?

É importante que elas procurem inserir o pai em todos os momentos de atendimento. Por exemplo, nas consultas, sempre ter a preocupação de convidar o homem para entrar. Porque, como isso ainda não faz parte da nossa cultura, às vezes o homem vai acompanhando a mulher, mas, naturalmente, fica do lado de fora. Uma recomendação que a gente faz é a de sempre haver nos consultórios, pelo menos, mais uma cadeira para acompanhante, pois isso já sinaliza que aquele acompanhamento é bem-vindo, assim como incentivar que ele vá conhecer a maternidade onde será realizado o parto e esteja presente, ao lado da mulher, no momento do nascimento. Uma ideia muito interessante do Programa de Saúde da Família do Morro Santa Marta é fazer a visita domiciliar logo após o parto, aproveitando a presença do pai em casa durante a licença para passar orientações sobre como dar banho no bebê, promover grupos de homens, entre outras atividades. Também estamos estimulando a ampliação do pré-natal masculino, para que as unidades de saúde ofereçam ao homem, durante o período de gestação da mulher, uma consulta só para ele, que pode ser médica ou de enfermagem, individual ou coletiva. É preciso criar ações específicas para essa clientela, seja com mudanças na estrutura física, na cor e decoração dos ambientes ou com a ampliação da rede de parceiros que possam dar suporte aos serviços demandados pelos homens, como oportunidades de emprego, reforço escolar, profissionalização, entre outros. Também é fundamental uma preocupação com os horários de atendimento, que precisam ser ampliados durante a semana, para que o pai possa estar presente às consultas após o trabalho, e estendidos aos sábados.

O que é o Mês de Valorização da Paternidade?

A iniciativa, criada em 2002 por um comitê intersetorial – o Comitê Vida –, tem como objetivo promover, todo mês de agosto, em unidades de saúde, bibliotecas e espaços públicos, escolas, vilas olímpicas, ONGs e na mídia, a realização de atividades de integração pais e filhos, estimulando a reflexão sobre o que é ser pai nos dias de hoje. A cada ano, a equipe elege um tema disparador e, a partir desse tema, produz materiais, divulga e troca experiências de sucesso na saúde, na educação, em todas as instâncias da sociedade. Para a realização da iniciativa, o Comitê Vida conta com uma rede de parceiros que se apoiam mutuamente no desenvolvimento dessa proposta. Na saúde, para que ideia não ficasse restrita ao mês de agosto, nós criamos a iniciativa Unidade de Saúde Parceira do Pai. Publicamos um conjunto de recomendações e, em 2012, certificamos 13 unidades básicas mais estruturadas e abertas à participação dos homens nos serviços. Como próximo passo, pretendemos fazer a certificação das maternidades.

postal comite vida

O comportamento da mulher pode tanto estimular como desestimular a participação do homem? Qual o desafio para promover o exercício pleno da paternidade?

Na verdade, o cuidado com os filhos é um poder historicamente atribuído à mulher, então ela de alguma forma tem de ceder. Muitas vezes, por mais que ela queira que o homem participe da criação dos filhos, quer que ele faça aquilo da maneira como ela deseja e tem dificuldade de aceitar que, ao assumir esse cuidado, o homem vai fazer do jeito dele. Então, é um processo que exige maturidade dos dois lados. E exige também que a mulher seja acolhida e respeitada por sua escolha de dividir com o pai a criação dos filhos, sem ser considerada, pela família e pela sociedade, como uma mãe omissa ou negligente. É importante entender que, a partir da disponibilidade de tempo e dos interesses e habilidades específicas, cada casal pode estabelecer o seu jeito de cuidar, optando pelo melhor modelo para aquele homem, aquela mulher e aquela família como um todo.

* Entrevista publicada originalmente no site do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz)
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