BIBLIOTECA: gentileza no namoro no jornal Extra

26 jun

Reportagem publicada em 23 de junho de 2014 no jornal Extra

Violência doméstica também é questão de saúde pública
Entenda e saiba como denunciar

Campanha “Gentileza no Namoro” busca prevenir a violência entre casais de adolescentes. Foto: André Corrêa

Campanha “Gentileza no Namoro” busca prevenir a violência entre casais de adolescentes.
Foto: André Corrêa

A relação se deu sempre com pequenas ameaças, ciúmes, o namorado querendo controlar sua forma de falar em público, sua relação com as outras pessoas. No início ela não aceitava o desaforo e deixava o rapaz falando sozinho. Alguns dias depois, estavam juntos novamente. Sempre brigando, mas sempre juntos. Depois de grávida, ela se viu suportando a opressão psicológica porque imaginava que esta seria uma forma de preserva sua família e que a convivência com os filhos mudaria a situação entre eles. Foram três filhos e o atrito chegou a diminuir, mas as agressões não pararam completamente.

— Ele quebrava portas, destruía tudo dentro de casa, remexia nas minhas coisas, tinha ciúme do meu passado. Eu pensava que a coisa ia melhorar, que ele amadureceria e, em vez de procurar tratamento pra mim, procurei pra ele, que nunca fez. E então, dez anos depois, a violência passou a ser física — conta emocionada uma mulher de 54 anos que não quis se identificar.

Com o objetivo de reverter este contexto de normalização da agressão, a Secretaria Municipal de Saúde lançou este ano a campanha “Gentileza no Namoro”, que durante o mês de junho realiza ações coordenadas nas escolas da rede pública e nas unidades básicas de saúde para sensibilizar os adolescentes e evitar a violência nos relacionamentos do início da vida. Para a coordenação da campanha, a violência no namoro é também uma questão de saúde pública:

— Existem impactos para a saúde e pode gerar conseqüências como a baixa autoestima, depressão, consumo de álcool e outras drogas e relações sexuais desprotegidas. Desfazer o tabu e conversar sobre as diversas formas de violência que podem ocorrer nos relacionamentos é a melhor forma de prevenir e enfrentar o problema — analisa Vivane Castello Branco, coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da Superintendência de Promoção da Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio, responsável pela campanha.

Desde 2006 a Lei Maria da Penha busca proteger e tratar com rigor situações de violência doméstica como as relatadas acima. Não é coincidência que a Lei atue em sua maioria em defesa das mulheres. Segundo a avaliação das fichas de notificação de violência doméstica feita pela Secretaria Municipal de Saúde, num total de 1734 notificações, 105 homens se dizem agredidos, contra 1629 mulheres. Dos agressores, 54,6% eram cônjuges, 21,3% ex-cônjuges, 15,6% namorados e 8,4% ex-namorados. A relação é de 2,5 adolescentes mulheres violentadas para cada adolescente homem que relata ter sido agredido, e o número cresce em adultos (20 a 59 anos): 9 mulheres para cada homem.

A relação é de 2,5 adolescentes mulheres violentadas para cada adolescente homem que relata ter sido agredido. Foto: André Teixeira / O Globo

A relação é de 2,5 adolescentes mulheres violentadas para cada adolescente homem que relata ter sido agredido. Foto: André Teixeira / O Globo

 

Invertendo a lógica da violência

— São alguns mitos a respeito do amor que sustentam as pessoas em histórias de violência. A ideia de que confiar demanda saber e controlar tudo o que se passa com o outro, a cultura machista da sociedade que acredita numa imposição pela força, a esperança de que quando casar vai melhorar são alguns dos motivos que parecem criar essas situações — explica Viviane Castello Branco.

O artigo ‘Namoro na adolescência no Brasil’ da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz sobre violência no namoro indica que a maior parte dos adolescentes que relatam viver situações de agressões nos relacionamentos declaram também ter vivido ou assistido atos de violência na família, seja entre os pais, dos pais com os filhos, entre irmãos, outros familiares ou até amigos próximos. Os resultados da pesquisa mostram que a prática da violência nas relações afetivas tende a ser um comportamento repetido e até justificado pelas referências vividas pelo indivíduo; isto é, ver ou conviver com violência afetiva influencia na formação de pessoas mais agressivas.

— Tem pouco mais de dois anos que consegui entender o que só aceitei ser agredida por tanto tempo porque vivia isso na minha família. Eu sou a filha mais velha e precisava proteger minha mãe quando meu pai a agredia e ameaçava com facas e garrafa de bebida. Mesmo sofrendo com isso, e talvez por isso, eu via as agressões com frequência e não consegui me proteger dela. Demorei para querer me relacionar por medo disso — relata a mulher que não quis se identificar e é casada há 29 anos com um homem que nunca deixou de agredi-la.

Com esquetes teatrais, rodas de conversa e exibição de filmes que abordem o tema da sexualidade e do namoro na adolescência, a campanha “Gentileza no Namoro” busca gerar o debate sobre a violência para criar novas referências para os jovens.

— A ideia é que eles saibam reconhecer quando estão sendo ou quando estão sofrendo agressões e tenham a oportunidade de fazer diferente, de pedir ajuda e não deixar que a situação fuja do controle — avalia Viviane Castello Branco, também coordenadora da campanha.

Além da agressão física e sexual, a agressão psicológica também é frequência em relações violentas. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Além da agressão física e sexual, a agressão psicológica também é frequência em relações violentas. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

 

O que é violência no namoro?

Dos estudos feitos, a agressão física aparece com maior incidência, mas não é a única preocupação em relação à violência no namoro ou casamento. Agressões verbais e morais, com ameaças e chantagem ajudam a criar a sensação de que se tem poder e controle sobre o parceiro, gerando o contexto de sofrimento nas relações amorosas. Normalmente esta situação se cria quando um dos namorados pensa que:

– Tem o direito de decidir determinadas coisas pelo namorado ou pela namorada

– Para ser respeitado(a) tem que se impor

– Ser masculino (ser homem) é ser agressivo e usar a força

– As crises de ciúme e o sentimento de posse do namorado ou da namorada são entendidos como sinais de amor

– Não pode se recusar a ter relações sexuais ou a fazer o que não deseja

Tipos de agressão

A violência física é o tipo mais registrado nas notificações avaliadas pela Prefeitura: acima de 95% entre cônjuges e ex-cônjuges, 89% entre namorados e 78% nos ex-namorados. A violência sexual chega a 10% dos casos relatados, sendo 30% dos casos produzidos pelo o ex-namorado e 21% pelo namorado.

— Quando você se dá conta de que está vivendo uma relação violenta, o mais difícil é assumir que ela a violência está em tudo e a pior agressão é a psicologica. Ela acontece entre quatro paredes, em público, o tempo todo. Vira parte da intimidade do casal, da história que está sendo construída e ai mexe com a auto-estima, com a vontade de viver — explica a mulher de 54 anos que está finalmente se separando do marido agressor.

Sendo mais de 40% dos casos notificados junto à Prefeitura, relatos indicam que a agressão psicológica costuma ser a mais difícil de perceber, quando não está associada a outros tipos de violência. Saiba as ações que podem ser consideradas agressões e opressões psicológicas, segundo o estudo da Fiocruz:

– Verbal ou emocional: mencionar repetidamente algo de ruim que o parceiro fez no passado, dizer coisas para deixá-lo com raiva, falar em tom hostil, insultar ou ridizularizar em público

– Relacional: tentar virar os amigos contra o parceiro, dizer coisas sobre ele aos seus amigos para criar intrigas, espalhar boatos sobre o parceiro.

– Ameaças: destruir ou ameaçar destruir algo de valor do parceiro, tentar amedrontá-lo, ameaçar machucá-lo ou jogar coisas sobre ele.

Conheça os seus direitos:

1- Não ter namorado ou namorada

2- Expressar suas idéias e talentos

3- Expressar seus sentimentos, mesmo quando negativos

4- Escolher seus amigos, seu trabalho, sua religião

5- Viver sem medo

6- Ter tempo para você

7- Gastar seu dinheiro como quiser

8- Ser escutado(a) e apoiado(a) por sua família e amigos

9- Decidir se você quer ou não fazer sexo.

 

Mulheres adultas são nove vezes mais vítimas de agressão do que homens. Foto: Ana Branco

Mulheres adultas são nove vezes mais vítimas de agressão do que homens. Foto: Ana Branco

Não se cale

As denúncias de violência doméstica podem ser feitas pelo

Disque Denúncia 2253-1177

ou nas unidades da Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM). Veja os endereços

Rio de Janeiro, Campo Grande: Av. Cesário de Melo, 4138 (tel: 2332-7537)

Rio de Janeiro, Centro: Rua Visconde do Rio Branco, 12 (tel: 2334-9859)

Rio de Janeiro, Jacarepaguá: Rua Henriqueta, 197 (tel: 2332-2578)

Belford Roxo: Alameda Retiro da Imprensa, 800 (tel: 3771-1135)

Cabo Frio: Av. Texeira e Souza, s/n, São Cristóvão (tel: 22 2648-9029)

Duque de Caxias: Rua Tem. José Dias, 344 (tel: 2771-3434)

Niterói: Av. Amaral Peixoto, 577, 3º andar (tel: 2717-0558)

Nova Friburgo: Av. Presidente Costa e Silva, 501, Centro (tel:22 2533-1694)

Nova Iguaçu: Av. Governador Amaral Peixoto, 950, Centro (tel: 3779-9416)

São Gonçalo: Av. Doutor Porciúncula, 345, Venda da Cruz (tel: 3119-3882)

São João de Meriti: Av. doutor Arruda Negreiro, s/nº, 3º andar (tel: 2655-5238)

Volta Redonda: Av. Lucas Evangelista, 667, 3º andar (tel: 24 3339-2279)

O atendimento e apoio às pessoas que sofrem violência nas relações afetivas é oferecido em todas as Unidades Básicas de Saúde da rede municipal.

Saiba mais
— Conheça a campanha pela gentileza no namoro
— Acompanhe a página da gentileza no namoro no Facebook
— Confira a biblioteca e videoteca sobre namoro saudável, com referências para o desenvolvimento de dinâmicas sobre o tema

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